por Nereide Michel em 06/08/2026
O que se veste hoje – focando no setor da moda – tem muito mais a ver com a conscientização do consumidor do que com o simples impulso de adquirir uma peça que se viu na vitrine. Tendências continuam como uma opção prática para quem trabalha com lançamentos de coleções – são a bússola para definir o estilo do seu público. Mas mesmo entre os direcionamentos a seguir em uma temporada existe a presença forte de questionamentos como “a roupa que você usa reflete o que você é ou o seu posicionamento perante as exigências do mundo atual”?

Forward / Matheus Dias
Daí a necessidade urgente e básica da indústria da moda de envolver-se com as expectativas do consumidor dos dias de hoje, que busca identidade, qualidade e permanência ao adquirir uma peça. Para ele, mais que novidade são valores, personalidade e propósito que irão determinar a sua escolha. Uma mudança de comportamento – gerada, principalmente, pela preocupação justificada com as condições socioambientais do planeta – que está provocando reações que impactam o setor produtivo das confecções. Desde 19 de julho, empresas de grande porte da União Europeia estão proibidas de destruir roupas, calçados e acessórios novos que permaneceram sem venda. Pela nova legislação, esses produtos devem ser reutilizados, revendidos, doados ou reciclados, fortalecendo a economia circular e reduzindo o desperdício. Segundo a Comissão Europeia, entre 4% e 9% dos produtos têxteis comercializados no continente eram descartados antes mesmo de serem utilizados, prática responsável pela emissão de aproximadamente 5,6 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
Medidas regulamentárias que acompanham expectativas especialmente de gerações mais jovens como aponta o ThredUp Resale Report 2025, elaborado em parceria com a GlobalData: elas têm optado mais por peças com maior durabilidade, autenticidade, exclusividade e menor impacto ambiental enquanto o mercado global de moda de segunda mão deve movimentar US$ 367 bilhões até 2029, crescendo em ritmo superior ao varejo tradicional.

Carina Campos e Fernanda Peixoto / Matheus Dias
Quando planejaram o lançamento da Forward, uma marca que nasceu em 2003 como uma plataforma digital e moda circular, as empresárias Maria Fernanda Peixoto e Carina Campos priorizaram como proposta justamente “a valorização de peças que permanecem relevantes ao longo do tempo”. Uma fórmula acertada conforme demonstra a evolução da empresa – em março deste ano foi inaugurada a sua primeira loja física no Batel. Uma estratégia bem sucedida graças a uma cuidadosa curadoria. Cada item passa por uma seleção criteriosa que avalia design, qualidade de construção, modelagem, estado de conservação, atualidade e potencial de continuidade no cotidiano do consumidor. Como destacam as sócias da Forward, “em vez de organizar o acervo por tendências ou temporadas, o objetivo é reunir peças capazes de atravessar diferentes momentos, preservando sua qualidade, seu estilo e a capacidade de ganhar novos significados”.
Segundo esclarece Carina Campos, “hoje nossa cliente não procura simplesmente uma roupa. Ela procura uma peça que converse com sua personalidade. Existe um prazer muito grande no garimpo, naquele instante em que alguém encontra algo único e percebe que aquilo parecia estar esperando por ela. Não vendemos apenas roupas. Revelamos oportunidades, verdadeiros tesouros que continuam fazendo sentido”.

Forward loja física /Matheus Dias
Mais do que acompanhar o crescimento da economia circular, a marca busca ampliar a conversa sobre comportamento, cultura e consumo. Essa proposta se desdobra em iniciativas que extrapolam o ambiente da loja e promovem encontros voltados à reflexão sobre a forma como as pessoas se relacionam com aquilo que vestem. Por exemplo, no dia 5 de agosto, aconteceu a segunda edição do Forward Sessions, encontro que reúne moda, arte e conversa com clientes para reforçar o conceito focado pelo empreendimento. O tema do evento “Usei apenas uma vez. Ainda conta como novo?” contou com a participação do pesquisador de cultura, comportamento e consumo Felipe Machado, mestre e doutor em Design pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além da artista e ceramista Bruna Dala Rosa, da ESMO, que realizou intervenções ao vivo em peças exclusivas.
Afinal, “aquilo que compramos nunca representa apenas um objeto. Cada escolha diz alguma coisa sobre quem somos ou sobre quem queremos nos tornar. A roupa é apenas o ponto de partida para uma conversa muito maior sobre identidade, memória e consumo” expressa Maria Fernanda Peixoto que informa também que, em breve, a marca irá lançar um podcast para ampliar ainda mais o diálogo sobre moda, comportamento, cultura e estilo de vida.
