Coisa Nova - Fashion

por Nereide Michel em 18/12/2025

Não é de hoje que roupas e acessórios se curvam ante certos ditames tirânicos – consequência quase sempre de rigorosos padrões sociais e religiosos imperativos em determinadas épocas – como também são históricas as ocasiões em que a moda dá o seu grito de liberdade. Mulheres sufocadas por espartilhos agradeceram ao visionário costureiro Paul Poiret, que captando as mudanças comportamentais que estavam por vir na sociedade no início do século XX – alardeadas pelas novas formas estéticas desenhadas por cubistas, surrealistas e dadaístas – lançou vestidos leves e soltos. Em compensação, as mulheres foram brindadas com ligas, soutiens e caleçons (calcinhas) de seda no seu guarda-roupa. Um avanço libertário e tanto que levou pouco mais de meio século para se ver contestado pelos movimentos feministas dos anos 60 que atearam fogo aos símbolos repressores de sua sexualidade.

Pixabay

E o que dizer quando tênis, camiseta e calça jeans tomaram conta das ruas vestindo uma juventude com ou sem causa? 

A virada do século XX para o XXI chegou com a palavra conforto estampada em letras garrafais indicando a moda a ser adotada por consumidores que já não se sentiam mais oprimidos pelas amarras de padrões norteando suas escolhas. A flexibilidade proporcionada pelos tecidos que moldavam o corpo ultrapassou os limites das academias e saltos foram substituídos por sapatilhas, presentes em qualquer ocasião, para citar dois exemplos de uma tendência ainda persistente. As roupas que se usava em casa, se sentiram em casa também nas ruas.

Eika NY

Uma evolução que explica o crescente investimento criativo e produtivo em um dos segmentos mais caseiros da moda – o da roupa de dormir identificado como uma new brand de pijamas premium pelo apuro como as peças são confeccionadas. Cumprem sua missão de origem, parceiras fiéis que são de uma boa noite de noite de sono. Mas ganham holofotes de passarela graças ao detalhismo como as coleções, desenhadas especificamente para elas, são desenvolvidas – com o capricho da autoralidade. A Dindi, marca curitibana recém-lançada pela dupla Carolina Ritzmann e Fabio Dallazem Filho, adota, com olhar contemporâneo, todos os cânones desse estilo acrescido de uma boa dose de memória afetiva. Na origem da marca está a antiga confecção de pijamas da avó de Fabio, que agora ressurge em linguagem atualizada, urbana e sofisticada.

Eika NY

Como lembra Carolina Ritzmann, “sempre gostei de moda, mas até então não a enxergava como profissão ou negócio. Quando Fabio idealizou recuperar a confecção de pijamas, como uma homenagem à avó, percebi uma dor no mercado que também era a minha: o pijama ainda carregava muitas limitações e estereótipos. Me tornei sócia desta ideia e decidimos repensar tudo e criar uma marca que conversasse com essa atual realidade. Queríamos peças que fossem bonitas e inteligentes e que não pedissem desculpas por ser pijama. É um sonho antigo dele, mais recente meu, que agora ganha forma.”

Eika NY

Se ruptura e transgressão são palavras linkadas ao conceito da moda nos anos dois mil, a Dindi chega com a proposta de romper barreiras também – capta do lado de fora de casa os dogmas da alta-costura e os traz para a intimidade dos lares. O luxo molda o pijama apoiando-se no design inteligente, na matéria-prima inovadora e acabamento e caimento perfeitos. Parece uma peça saída do atelier de um designer. E é. Mas com o conforto máximo assegurado!

Nada de calças frouxas com cadarço, camisões de botão ou camisolas infantilizadas. A Dindi parte das necessidades reais de quem vive com roupa confortável dentro e fora de casa: descer para buscar uma encomenda, passear com o pet, buscar o filho numa festa, caminhar pelo condomínio e, claro, dormir com conforto térmico. Presença mínima de aviamentos, relevos eliminados e a garantia que nada – absolutamente nada — interfira no contato do tecido com a pele. Etiquetas seguem o mesmo princípio: são decalcadas para não incomodar. Itens onipresentes em cada peça da marca.

Eika NY

A diretora criativa Mariah Salomão Viana, há quase 20 anos à frente do Novo Louvre, assina com a identidade inconfundível de sua estética, que conversa com a realidade e vivência dos sócios criadores da Dindi – Carolina é filha de arquiteta e Fabio trabalha há anos no mercado imobiliário –  shapes arquitetônicos, sobreposições inteligentes, pontos de apoio estruturais, pences e pregas como desenho e função e volumes que equilibram elegância e mobilidade. Segundo sua definição, “os modelos transitam com fluidez entre o espaço privado, semipúblico e público, reafirmando uma nova tipologia do vestir contemporâneo”. A construção da marca, a partir do branding desenvolvido pela Ésse Brands, de Scheila Schuchovski, tem a direção da agência O Novo, também capitaneada por Mariah Salomão.