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por Nereide Michel em 23/04/2026

Qual é a tendência da moda para a próxima temporada? Olhe para o prato e observe o que ele está lhe ofertando na sua refeição diária. Não se está falando de silhueta moldada pelos quilos a menos ou a mais – as tão propaladas dietas de cortes de ingredientes – mas, sim, de uma movimento globalizado que mira um aspecto primordial para quem vive no Planeta Terra: a manutenção das condições ideais para a sobrevivência das espécies – a humana incluída – tão ameaçadas pelos excessos da industrialização de produtos. Se décadas atrás, eles eram recepcionados nos lares em nome da praticidade, muitos, no decorrer do tempo, deixaram vestígios perturbadores na qualidade do ar e da água que podem ser catastróficos a longo prazo. Testemunha da época em que vivemos a moda reage através de seus autores que, baseando-se em dados científicos, alimentam sua inspiração com roupas e acessórios cocriados com as benesses da Natureza. 

Stella McCartney / Winter 2026. Divulgação

 Desde que lançou sua marca em 2001, Stella McCartney manteve fidelidade aos preceitos veganos. Em suas coleções, opta por alternativas inovadoras e sustentáveis como couro de cogumelo (micélio), couro de maçã e penas à base de plantas. Uma parceria em 2023 com a Veuve Clicquot resultou na linha Vegea – acessórios feitos a partir de caules e cascas de uva. Também já apresentou ao mercado o BioPuf, um substituto para as penas de animais.

Não se trata ainda de um posicionamento radical e definitivo para eliminar todos os males causados pelo que vestimos ao meio ambiente. Mas de uma atitude que se escora na conscientização de que existe sim uma passarela saudável na qual os lançamentos da temporada poderão ser apresentados a um público sempre ávido por novidades. Aliás, já estão sendo mostrados e por marcas icônicas do mercado de luxo como Louis Vuitton, Prada e Stella McCartney – uma pioneira ao associar os cânones veganos às suas criações. Nas coleções Winter 2026, na Paris Fashion Week, que aconteceu em março, foram inseridas peças com materiais inovadores e sustentáveis. Além disso, Nike, Calvin Klein, Hugo Boss, H&M e Zara já aparecem entre os apoiadores de projetos que desenvolvem, por exemplo, produtos à base de fibras vegetais e frutas.

DO LABORATÓRIO À PASSARELA

Alexandra Farah /Divulgação

“Moda e Gastronomia – Inovações e Tendências”, eis o foco de uma interessante pesquisa realizada pela jornalista paulistana Alexandra Farah e que resultou em uma reflexão sobre “como a alimentação e moda caminham juntas na construção de um futuro mais consciente”. Conteúdo para a palestra que ela apresentou  em um encontro com a imprensa curitibana no sábado, dia 11 de abril, em um ambiente que dialoga perfeitamente com o tema proposto – o restaurante Pierre Vegetariano.

Alexandra Farah abordou assuntos como a evolução de movimentos como o Slow Food e Slow Fashion, além do crescimento dos selos orgânicos e da rastreabilidade, uma iniciativa que surgiu nas feiras – as primeiras a abrigar produtos orgânicos – antes de sensibilizar as grandes marcas. O consumo plant-based também foi destacado uma vez que gera o desenvolvimento de novos materiais e cadeias produtivas absorvidas pelo mercado da moda. E fez um alerta sob a bandeira do greenwashing – o consumidor deve estar atento quanto aos materiais utilizados nas confecções. A palestrante comparou, por exemplo, os couros animal e sintético e os biomateriais com relação ao tempo que levam na sua decomposição no meio ambiente confirmando que as soluções mais inovadoras vêm da terra, com alternativas que utilizam resíduos agrícolas e biotecnologia vegetal. Essas são compostáveis e biodegradáveis ao contrário do couro de animal, que também é biodegradável mas através de um processo que demora de 10 a 50 anos, sendo que o curtimento químico nele utilizado prejudica as boas condições do solo. 

MODA NO CARDÁPIO

Alessandra Farah demonstrou em sua palestra de forma prática como a moda, nos mais diversos segmentos, está assumindo um importante papel para abrir  espaço nas passarelas e vitrines a peças inovadoras e que têm na sua origem plantas, fibras e frutas. Ainda longe de concorrerem com a escala produtiva de roupas e acessórios que saem de ateliers e fábricas, elas embutem o alento de que já existem opções para um guarda-roupa isento de elementos químicos poluidores do meio ambiente.

Cascas, sementes e caules descartados pelas vinícolas são transformados em biocouro comum. Borra de café está na base de um tecido que controla o odor natural e tem secagem rápida. Tecido 100% biodegradável, desenvolvido na Turquia, tem origem nos subprodutos e produtos provenientes do chá.

Tênis gerado a partir das folhas do abacaxi. Couro de cacto mexicanos pede baixíssimo uso de água. Do suco de maçã resulta um material flexível e resistente aos raios UV.

 

Até onde vai a ousadia dos pesquisadores em busca de uma moda saudável? Colágeno de T-Rex, sim, ele mesmo o dinossauro, forneceu a proteína fóssil cultivada (sem uso animal) em um laboratório de Amsterdã, matéria-prima para uma charmosa bolsa. Enquanto uma seda produzida a partir da fibra de aranha, super-resistente, leve e biodegradável,  já é apontada como uma das revoluções têxteis de alto desempenho.

LINHA DO TEMPO

Se nos dias de hoje os lançamentos de produtos originados de descartes de alimentos ou pesquisas em laboratórios se revestem de um toque de sofisticação, basta dar uma olhada em direção ao passado – não tão distante assim – para comprovar que a motivação que dá gás a estes projetos teve origem em atitudes simples e cotidianas. Delas, resultaram termos incorporados ao conceito de moda e ao universo criativo de estilistas atraindo consumidores mais conscientes quanto ao uso de roupas e acessórios.

MOVIMENTO HIPPIE

Divulgação

Com sua contestação às repressões de uma sociedade extremamente consumista, os hippies, que surgiram na década de 60 em São Francisco e no East Village de Nova York, nos Estados Unidos, se declararam livres para viver em Paz e no Amor. Com suas roupas coloridas, leves e soltas, acessórios artesanais, cabelos compridos e respeito à Natureza. O ativismo ambiental e a busca por estilos de vida mais sustentáveis, que estavam entre os seus objetivos, continuam ecoando na atualidade.

CUSTOMIZAÇÃO

Blog Maximus Tecidos

Nos anos 90 surgiu uma nova maneira de dar um jeito em roupas e acessórios renovando-os e lhes dando mais tempo de uso. A customização. Bordados, pinturas, arremates de crochê e aplicação de pedrarias… A imaginação voava e a criatividade invadia não apenas os ateliers como também os lares. E haja inspiração nos figurinos da vovó e apelo às suas habilidades artesanais! A consciência de evitar que uma peça ficasse esquecida no armário ou fosse descartada de modo inadequado já pairava nessa tendência – que não perdeu contemporaneidade.

BRECHÓ

Gabriela Gelinski / Brechó Saí do Armário

A princípio restrito a um pequeno grupo de consumidores, os brechós saíram das garagens e salas discretas para ganhar vitrines de lojas até em shoppings. De início a necessidade de economizar na renovação do guarda-roupa foi um dos seus motes. Mas a urgência cada vez mais premente de se adotar medidas para prevenir danos ao meio ambiente – uma carga pesada que ainda assombra a indústria da moda – foi a responsável para que o número de seus adeptos aumentasse de forma expressiva. Hoje usar uma peça de segunda mão é sinônimo de consciência ecológica coletiva.

Tamyres Ikuno / Saí do Armário

O Encontro de Brechós Saí do Armário é um dos mais tradicionais e ativos de Curitiba. A edição mais recente acontece no domingo, dia 19 de abril, no Barão Hall, no Largo da Ordem. Com peças a partir de R$ 30. 

UPCYCLING

Pool Loop /Riachuelo e Marcelo Sommer

Na trilha da customização, o upcycling visa dar uma nova funcionalidade a materiais que seriam descartados. Na moda, ela tem muitos seguidores entre designers que aliam criatividade e qualidade no desenvolvimento de peças geradas a partir das refugadas pelos seus donos.

Pool Loop

A Riachuelo, que em março apresentou o primeiro jeans brasileiro com elastano feito a partir de cana-de-açúcar, está ampliando os seus investimentos em sustentabilidade e inovação na indústria têxtil. Em colaboração com Marcelo Sommer, fundador da marca Uó upcycling, lançou a Pool Loop, uma mini coleção, com venda exclusiva na loja da marca em Pinheiros, na capital paulista. A ideia é ressignificar peças e sobras têxteis da Riachuelo a partir da estética jovem e autoral do designer. Trata-se de um primeiro passo: a proposta inicial da linha é funcionar como um laboratório, com potencial de evolução e ganho de escala.

MODA SUSTENTÁVEL

Luan Valloto

Não é de hoje que a ficha técnica – ou etiqueta – de roupas e acessórios de designers com preocupação ecológica ostenta o seu posicionamento no cenário da moda. Nela, há um abismo entre como as coleções são desenvolvidas e as que saem das fábricas com produção em larga escala. É o slow fashion, que transcende temporadas – com peças costuradas sem pressa – e que tem na sustentabilidade um dos seus pilares. Preconiza a produção e o consumo conscientes, associando a moda à durabilidade e à ética – a responsabilidade social assumida assim que se veste uma roupa.

Luan Valloto

Luan Valloto, designer curitibano, tem na arquitetura e na arte uma de suas fontes de inspiração. Com foco especial em alfaiataria e peças multifuncionais é um adepto incorrigível da prática do zero resíduo. O linho é presença obrigatória nas suas coleções. O tingimento natural dá o tom do conceito que imprime a cada lançamento.