por Nereide Michel em 16/10/2026
Arte sem emoção não existe. Uma obra de arte embute a carga emocional de quem a cria e apenas cumpre a sua finalidade se provocar uma reação – se mexer com os sentimentos – de quem a aprecia. Independente de estilo, material e formato escolhidos para a sua materialização, a emoção é onipresente. Vivências, experimentações e pesquisas são parceiras da inspiração no processo criativo – do intangível ao palpável.
Para quem quer se deixar seduzir pelo impacto da emoção na arte, uma oportunidade imperdível está na exposição “Vestir o Olhar”, instalada no Pátio Batel, piso 01. O evento, realização do shopping, tem a curadoria de Ana Carolina Ralston e produção da Avo Cultural. Com visitação aberta ao público, acontece até 18 de outubro. A mostra inclui trabalhos de Efigênia Rolim, a “Rainha do Papel de Bala”, – a homenageada dessa edição-, Ronaldo Fraga, Jum Nakao, Labô Young, Guita Soifer, Janet Vollebregt, Nathalie Edenburg, Nazareth Pacheco e Nino Cais. Estilistas e artistas plásticos compartilham o mesmo espaço. A emoção une as criações, como uma linha tênue, mas ela tem significados bem particulares. O desafio proposto na mostra é descobrir a sua interferência na elaboração de roupas, acessórios, pinturas, esculturas e instalações.
O LUXO DE SER EFIGÊNIA

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Se a emoção vestisse roupa, ela teria muitas e variadas opções nas criações/esculturas de Efigênia Rolim. Elas são compostas de dezenas, centenas de pequenos e grandes produtos, descartados, que vivem agora uma outra história, com novos significados. Impossível mensurar o tanto de emoção que mãos, agora ausentes e desconhecidas, passaram durante o processo de fabricação desses objetos. Se Efigênia, um certo dia, passando pela curitibana Rua das Flores confundiu um brilhante papel de bala com uma esmeralda, a simplicidade da comparação entre os dois lhe apontou a riqueza criativa que permearia o seu trabalho.

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A obra de Efigênia Rolim é um retorno ao cotidiano. Inseridos na criação, rótulos e embalagens descartados continuam presentes.

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Efigênia Rolim, conhecida como a “Rainha do Papel de Bala”, fez do descarte a matéria-prima de seu trabalho ao transformar embalagens e materiais reciclados em roupas e esculturas. Sua obra aproxima arte e moda pelo reaproveitamento de materiais e pela roupa como território de identidade, afeto e criação, em uma pesquisa que antecipou discussões muito presentes na arte contemporânea.
ARTE DE PRESERVAR LEMBRANÇAS

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“Joias de Família”, instalação escultórica guarda anéis, colares e pulseira, mas também retratos, fios e objetos memoráveis.
A emoção de Guita Soifer extravasa nas muitas expressões de sua arte. Algumas criações ocupam amplos espaços, outras são delicadas peças preciosas, muitas ganham cores intensas, outras imprimem imagens. A emoção de Guita pode estar guardada numa simples caixa de joias, valiosa, pois, nela, a artista deposita objetos significativos de lembranças suas. Não precisam ostentar o brilho de diamantes, esmeraldas ou rubis para virarem acervo de família.

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Estandartes em tecido e fios. Um olhar atento percebe a intenção de Guida. Imprimir na obra laços familiares – mãe e filha.

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Guita Soifer é uma das mais importantes artistas paranaenses, transita entre gravura, pintura, fotografia e instalação. Seu trabalho investiga memória, matéria e transformação, dialogando com a construção visual do corpo e da imagem.
O FLUIR DA ENERGIA

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A vibração do verde presente na escultura, no quartzo e na pátina. Latão apoia a peça transmitindo estabilidade.
A sensibilidade de Janet Vollebregt lhe despertou reações, a princípio desconhecidas – como o de sentir uma energia “diferente” ao adentrar num ambiente. Como se ele palpitasse uma vibração estranha que ressoava em seu interior. Resolveu então seguir pelo caminho da autodescoberta. Uma escalada existencial pela arquitetura, tradições orientais e espiritualidade – Budismo, Xintoísmo, Feng Shui, Jin Shin Jyutsu. O resultado hoje transparece nas suas obras que captam e transferem emoções. Formas orgânicas e materiais naturais, como quartzo e ágata, compõem as suas esculturas.

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“Spirit House” nomeia a série de obras e revela a essência de quem as cria – a energia abraça o ambiente e quem nele está.
Janet Vollebregt, artista holandesa com base entre Brasil e Europa, cria instalações e esculturas que exploram corpo, espaço e energia. Sua pesquisa integra arte, design e arquitetura em experiências sensoriais que vestem espaços.
SUBSTANTIVO: MULHER. ADJETIVO: FEMININO

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A sensualidade não é emoção represada nos trabalhos de Nathalie Edenburg. Depois das passarelas e das poses ante fotógrafos, a ex-modelo passou a dar ao corpo uma nova função: a de expressar nas telas, sob o comando dos seus pincéis, desejos, vontades e rebeldias. O volume das formas traduz a liberalidade feminina e o contraste das cores rompe limites asfixiantes. O explícito, por ser poético, convida a ultrapassar limiares e enseja descobertas.

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“Autorretrato”, rosto encapsulado induz à curiosidade e provoca comparações anatômicas.
Nathalie Edenburg, artista, modelo e joalheira, transita entre a pintura e o design de joias. Sua produção explora formas orgânicas e processos intuitivos em um surrealismo que veste o corpo e o adorno.
DA SANTA CEIA À MESA DE JANTAR

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São doze cadeiras, doze pratos, doze guardanapos. A mesa está posta para receber os apóstolos. E o anfitrião? O espelho no meio da instalação revela o seu rosto. A contemporaneidade de uma passagem bíblica intriga e faz pensar.

Nino Cais estudou em seminário, pensando em ser padre. Uma vontade que perdeu sua força quando se encontrou com outras formas de expressar o que estava na sua alma. A oração materializou-se em instalações como a série de pratos e guardanapos, que compõem a mesa da Santa Ceia. Ou na quase obscuridade de uma partida sem volta, quem sabe, aguardando a ressureição. O peso sobre o peito vestido de camisa branca, sufoca sentimentos, e revela uma condição social. Quem não se emociona diante das intenções do artista?

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A forte ligação com a terra e as ferramentas que as revolve suscitam indagações diante do que é irreversível.

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Nino Cais trabalha com fotografia, colagem e objetos, usando roupas e elementos domésticos do cotidiano. Sua obra aproxima arte e moda de forma poética e conceitual, deslocando o sentido das coisas comuns.
CORTES E CICATRIZES

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Na instalação “Camarim” a cortina de lâminas prevê uma experiência dolorosa. O espelho iluminado indica um espetáculo por vir.
Não surpreende que Nazareth Pacheco encare a sua trajetória criativa como missão. Desafios, que fazem parte de sua vida desde o nascimento, se transformam em arte no processo de superação ante limitações na aparência física. A emoção sobrecarrega o seu trabalho, que não perde a leveza – materiais, como lâminas e agulhas, ganham delicadeza e transmitem uma contundente mensagem ao espectador de suas obras.

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Saia e bustier – a moda arrematada por agulhas e lâminas. Uma delicada sublimação das dores.
Nazareth Pacheco, com trajetória consolidada, trabalha materiais como vidro, cristais e metal para explorar o corpo como território de investigação. Sua obra evoca o adorno e tensiona a fronteira entre beleza e dor, desejo e desconforto.
NATUREZA NA VITRINE

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” Que seja infinito enquanto dure”, “Soneto de Fidelidade”, Vinicius de Moraes. Parâmetro para a arte de Labô?
Emoção é o arremate para uma criação do paraense Labô Young, que mergulha na sua natureza amazônica para encontrar nas florestas a matéria-prima para dar formas à sua inspiração. São peças modeladas com folhas de palmeira, sementes, flores e galhos, que ignoram tendências de temporada para se vestir de alerta/denúncia – sem perder a elegância. Na cartela, o verde é privilegiado. Mesmo tendo a efemeridade como companhia, os trabalhos resistem ao tempo pela força da originalidade, pelo impacto dos materiais utilizados e, principalmente, pela cultura regional neles embutida.
Labô Young investiga identidade, cultura urbana e visualidade contemporânea em tramas que evocam a Amazônia e dialogam com a estética da moda. Para a mostra, o artista produziu uma peça especialmente concebida para o tema da exposição.
O CÉU ENCONTRA A TERRA

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Touro ladeado por Virgem e Peixes. Ascendentes da mitologia antiga têm descendentes que colhem milho e tecem o algodão.
Jum Nakao se assume responsável por gerar emoção coletiva, uma catarse em uma escurecida sala de desfile que impactou espíritos desprevenidos, habituados ao convencional ofertado pelo mercado da moda. Sem se desligar da essência zen de sua origem nipônica, ele não dá sossego à vocação criativa, que o torna sempre disponível a novos desafios. Para a coleção Caelestis, de 2024, buscou inspiração nas constelações, onde o posicionamento geométrico das estrelas traçam o destino dos pobres mortais do planeta Terra. A série contempla os doze signos do zodíaco, etéreos no seu ambiente sideral, mas, que Jum puxou para o nosso solo pátrio ao expressar cada um dos seus símbolos com palha de milho, cestaria, capim e fios rústicos.

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Simbolismos do zodíaco têm seus correspondentes na fauna e na flora brasileiras.
Jum Nakao, um dos nomes mais relevantes da moda autoral brasileira, ficou conhecido pelo icônico desfile “A Costura do Invisível”, onde roupas de papel foram rasgadas diante do público. Sua obra aproxima moda, arte e performance ao questionar os processos e o consumo da indústria.
TRAVESSIA

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A letra de “Maria, Maria” estampa o vestido com delicadas flores enquanto ondas de tecidos configuram o modelo “Nascente”.
A música é passaporte carimbado para o universo comandado pela emoção. Trilhas sonoras são inspirações constantes no trabalho de Ronaldo Fraga – só pra lembrar as que foram compostas por Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues e que viraram personagens de suas coleções. Então nada mais natural que numa esquina da vida, mineiro como é, encontrasse as notas melodiosas de outro mineiro – Milton Nascimento. Tendo mãos artesãs para materializar o que foi esboçado nos seus desenhos, o estilista rege a sua orquestra particular com maestria, e assim surge um novo parceiro para o celebrado repertório de Bituca – o carinhoso apelido de Milton Nascimento.

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Artesãs crochetaram as notas da “Canção da América”. “Manto Bituca” foi inspirado em outro manto, o do artista Bispo do Rosário.
Ronaldo Fraga, um dos principais estilistas do país, constrói coleções que narram histórias e identidades culturais do Brasil. Sua prática ultrapassa a moda e trata o desfile como linguagem artística e crítica.
