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por Nereide Michel em 23/07/2026

Curitiba está repleta de “limiares” – tema da 16ª Bienal In­ternacional de Curitiba, que ocupa vários espaços culturais da cidade com a sua força magnética. Uma agenda repleta de exposições coletivas e individuais que convidam a pular a linha tênue que separa o real do imaginário – se aceito, o convite vai reforçar a  presença abstrata no cotidiano. Aquela que ao ignorar limites físicos libera a perambular entre passado, presente e futuro em idas e vindas atemporais conduzidas pelas manifestações artísticas.

Captando a essência que rege a Bienal, a Galeria Zilda Fraletti integrou uma das ações de abertura do evento, Curitiba Art Week, reunindo um grupo de artistas plásticos paranaenses na mostra  “Eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã”, sob s curadoria de Jhon Voese,  O título, ele encontrou  na composição “Armas Químicas e Poemas”, da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii – conceituação adequada ao elo que uniu as obras em exposição. Ao escapar das amarras limitantes do hoje para se deixar vagar pelo passado e futuro, como se esses três tempos coexistissem numa mesma dimensão, os participantes da coletiva expressaram “cada um à sua maneira, modos de imaginar, ou seja, colocar em imagem, tempos distintos”, segundo define o curador.

Esculturas de Juliana Fuganti, João Moro e Cleverson Oliveira; pinturas de Adriana Tabalipa, André Mendes e Marcelo Conrado; fotografias de Antonio Wolf, Francisco Faria e Rogério Ghomes e um quadro/reflexo de Bruno Marcelino compuseram o universo criativo imaginado por Jhon Voese. “Eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã”, começou em junho e encerrou em julho. As obras já retornaram às suas origens mantendo intacto o conceito que as uniu na mostra.

  Frases pinçadas da apresentação dos trabalhos expostos, assinada pelo curador da coletiva, legendam as imagens a seguir. 

 JOÃO MORO

“Sua escala de monumento não anseia narrativas ime­diatas. Formas orgânicas exploram o espaço. Cresce como troncos, galhos, raízes, mas a textura é de pe­dra, mas é polida, elegante, soa como mármore, mas se sintetiza em outra substância. As reentrâncias são pequenas cavernas de gelo, suficientes para um abri­go temporário, mas não para um habitat”

 CLEVERSON OLIVEIRA

“Peça que em aparência se assemelha a um conjunto de pedras empilhadas. Um gesto que reme­te tanto aos primórdios das primeiras comunidades de Sapiens, quanto aos aventureiros de hoje em dia, nô­mades digitais entediados que vão para as montanhas no fim de semana, passando por crianças (e adultos) brincando nos rios ou com seus blocos construtivos no conforto da sala de estar. O gesto ascensional e que demonstra nossa procura por equilibrar ao construir é colocado em confronto com a constituição da peça em si”.

ANDRÉ MENDES

Uma grande pintura de André Mendes nos desloca completamente para um espaço virtual. Diferente do que normalmente se pensa quando usamos essa palavra, não estamos tratando aqui de algo digital. O es­paço virtual existe muito antes da informática como conhecemos. E vemos que o artista explora muito bem as possibilidades desse mundo imagético. A obra ma­térica, com certo ruído de cor, mas sem abandoná-la, traz elementos simples e se diverte com nossas expec­tativas”

ADRIANA TABALIPA

A obra de Adriana Tabalipa, ” de um modo ainda mais abstrato nos conduz por graças e glórias. Aqui os gestos cromáti­cos produzem esferas virtualizantes. Notamos alguns contrastes interessantes, pequenos campos amarelos e dourados, bordôs, pêssegos e vermelhos, pontuam a cena entre os campos maiores que caminham des­de o turquesa até os azuis mais escuros.  Nesse sentido (se quiser­mos), podemos ler nos azuis, historicamente ligados ao divino, como campos de graça, já as cores quentes culminam no dourado que por si só já é símbolo má­ximo da glória”. 

MARCELO CONRADO

 “Prefiro pensar nessas imagens não como algo que tende à abstração, mas pelo contrário, algo que começa abstrato e está no princípio da concretude. Para pensarmos de modo fic­cional na criação de uma nova linguagem que poderia estar na base dessa escrita proposta, poderíamos in­verter também a ideia materialista que temos em nos­sa linguagem atual. Se no mundo existem coisas des­conexas e que vamos nomeando de modo igualmente caótico, passaríamos agora a focar nos verbos e não nos substantivos”.

FRANCISCO FARIA

“O desenho (fotográfico) de Francisco Faria distingue-se tecnicamente, mas mantém a trans­temporalidade e a liminaridade de linguagens. O grande formato nos abraça e nos leva imediatamente para os nossos próprios refúgios… O ponto é que esse mundo imaginado pelo artista não se trata de um mundo que já acabou. Não há nenhuma nostalgia como parecia haver em seus predecessores. O apelo contemporâ­neo é sempre no ainda permanece. Mesmo nas paisa­gens mais ficcionais, há sempre traços daquilo que se pode preservar ou melhor ainda daquilo que se pode construir”.

ROGÉRIO GHOMES

A fotografia da série “Entre Ver… por si mesma já nos ajuda a amarrar todo o conceito paradoxal des­ta exposição. A imagem fotográfica na obra do artista atua como uma suspensão da percepção. Ao selecio­nar uma vista urbana repleta de muitos fenômenos óp­ticos, opacidade, transparência e reflexos atuam como mediadores para nosso impulso humano que é como a luz. Nossa tendência é acelerar e o único modo de impedir nossos ímpetos é por meio da refração. Quan­do estamos em um meio mais fluido atuamos como desviantes. Se corremos pelo vácuo, somos implacá­veis. Ainda assim temos um limite e por nós mesmo somos a régua que define o que é tempo e o que é espaço. Como memória somos flashes, seja do que foi, ou do que será”. 

JULIANE FUGANTI

Duas espécies de esculturas de Juliane Fuganti foram selecionadas para a mostra. “Seus traços orgânicos trazem uma beleza selvagem. O que há de delicado pelo fato de se tratarem de cerâmicas, sobra em força e ousa­dia nas formas. Essas estruturas mimetizam uma bo­tânica ambígua. Diante delas, operamos em um terre­no de incertezas: não sabemos se estamos diante do registro fiel de uma flora existente ou da invenção de uma nova taxonomia. Há nelas o eco morfológico dos manguezais — raízes aéreas, caules retorcidos, a resi­liência de um ecossistema que habita a fronteira entre a terra e o mar —, mas que aqui se descola da preci­são geográfica para fundar um mito ecológico próprio. São plantas que podem ou não pertencer à nossa realidade.”

BRUNO MARCELINO

“Enquanto nos encontramos mortais, e por isso huma­nos, podemos apenas imaginar como seria uma vida sem limites e desprendida de possibilidades. Algo acontece com nossa imagem refletida no fundo dos trabalhos de Bruno Marcelino. Por entre as linhas ver­ticais notamos parte de uma imagem distorcida presa entre as barras cromáticas verticais. Uma alegoria da prisão pode ser o primeiro pensamento. Mas temos de lembrar que estamos tratando aqui de pinturas, não de alegorias. Há uma se­gunda alegoria possível sobre um certo personagem que queria viver para sempre e para isso bastava não olhar para uma certa pintura. Ato de vaidade ou pulsão de morte? Quem de nós pode julgar”?

ANTONIO WOLF

 

 “Um belo exemplo dessas imaginações “anti-lineares” são as obras fotográficas de Antonio Wolf. Fotografias (França, séc. XIX), cujo tema são naturezas mortas, stilleven (Flandres, séc. XVII), receberam um tipo de toque de Midas (Antiguidade clássica, consolidada como mito na Roma do séc. VIII), apresentada em uma moldura que possui uma textura de papel amassado, que remete às outras Interseções de Imagens, mas também a um tipo de luxo de uma nostalgia vivida nos anos 1970, que bus­cava um padrão de beleza dos anos 1920, resgatado contemporaneamente. Com apenas uma imagem vi­sitamos muitos lugares e épocas distintas. Algo trans­temporal. A segunda (imagem) apresenta uma pedra, despida de qualquer funcionalidade. Há ainda um cer­to tipo de confusão de linguagens, pois a textura do objeto retratado remete a pinceladas. O fundo preto isola as propriedades dos objetos, que nesse caso atu­am como sujeitos retratados. Essa estranheza nos faz questionar a que tempo realmente pertencem?”

 

GALERIA ZILDA FRALETTI

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