por Nereide Michel em 16/06/2026
Em sua 15ª edição, Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, nas telas da capital paranaense de 4 a 13 de junho, começou com bilheteria esgotada antes mesmo do seu início. O filme de estreia, “Yellow Cake”, lotou a plateia da Ópera de Arame com um fato importante observado pelo diretor geral do evento, Antonio Gonçalves Jr, divulgado por ele em entrevista para um canal de televisão: muita gente, que não havia conseguido ingresso, tentou dar um jeitinho para entrar no teatro e assistir ao longa-metragem. O filme dirigido por Tiago Melo, aliás, tem uma nova estrela internacional em seu elenco, Tânia Maria. Ela brilhou em um papel, que deveria ser coadjuvante, mas cresceu com uma despretensiosa interpretação no quase oscarizado “O Agente Secreto”. Seria ela a responsável pelo frisson observado no corte da fita inaugural do festival?

Tânia Maria em “Yellow Cake”.
Em primeira exibição nacional, “Yellow Cake”, dirigido por Tiago Melo, abriu oficialmente a 15ª edição do Olhar de Cinema”.
Independente de resposta ao questionamento é inegável que o cinema continua atraindo muitos olhares para as suas produções. É um setor da Cultura que continua a movimentar um expressivo público e uma importante estrutura operativa que, muitas vezes, tem origem em uma “ideia na cabeça e uma câmera na mão”. Como define Gonçalves Jr, “o Olhar promove diferentes olhares sobre determinado segmento, pauta, idade, direção ou estilo de produção”. Uma diversidade que dá identidade ao festival: com lentes ampliadas ele capta o interesse do público com uma diversificada programação que na última edição incluiu 80 filmes entre curtas e longas-metragens e ocupou espaços culturais importantes da capital paranaense como o Museu Oscar Niemeyer, a Ópera de Arame, o Cine Passeio, a Cinemateca e o Teatro da Vila.
“São 15 anos de programações pensadas por meio de um olhar aguçado e que busca fugir do comum, com títulos vindos de todo o mundo e que mostram a importância das especificidades das variadas artes de como fazer cinema, com produções apresentadas anos antes de sua circulação nacional e uma grade voltada a diferentes idades”, destaca Gabriel Borges, codiretor artístico do evento.

“Salvação”, do cineasta turco Emin Elper, encerrou no dia 13 de junho, a programação do Olhar de Cinema, com três exibições simultâneas: MON, Cine Passeio e Cinemateca. O longa ganhou o Urso de Prata do Grande Júri, do Festival de Berlim 2026. Em 2 de julho estreia no circuito comercial brasileiro.
OLHARES DO OLHAR
Uma proposta baseada em atingir os mais variados perfis de público, uma preocupação de contemplar o trabalho de profissionais que se encaixam em múltiplas expressões de uma arte que se alimenta, principalmente, de criatividade. Missão ambiciosa abraçada pela equipe de produção do Olhar de Cinema fadada a um final feliz graças à montagem de um cronograma que classifica obras a serem exibidas segundo objetivos claros. A 15ª edição do evento foi dividida em oito mostras, além dos filmes de abertura e encerramento: Olhar Retrospectivo, Competitiva Brasileira, Competitiva Internacional, Novos Olhares, Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos Cine Passeio e Pequenos Olhares.
Olhar Retrospectivo

“O Maestro”
Em sua 15ª edição, o festival homenageou o diretor Andrzej Wajda na Mostra Olhar Retrospectivo. O cineasta, que completaria 100 anos em 2026, é considerado uma voz fundamental para a identidade e a memória do seu país. “Andrzej Wajda: O Romântico (do Cinema Polonês)” reuniu seis filmes marcantes de sua carreira: “O Maestro”, “As Donzelas de Wilko”, “Os Feiticeiros Inocentes”, “Terra Prometida” e “Tudo à Venda”. Falecido em 2016, Wadja foi o principal expoente da chamada Escola Polonesa de Cinema e recebeu um Oscar Honorário pelo conjunto da obra em 2000.
Mostras Competitivas
Proposta: as produções selecionadas para as Mostras Competitivas, tanto a Internacional quanto a Brasileira, concorrem a Prêmios de Melhor Filme, Direção, Roteiro, Atuação, entre outros, concedidos pelo Júri, além das premiações do público, responsável por eleger o Melhor Longa e Melhor Curta.
A 15ª edição do Olhar de Cinema premiou, entre outras categorias, os longas brasileiros “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques (Melhor Filme); “Olhe Para Mim”, de Rafhael Barbosa (Melhor Direção) e “Adulto/Homem”, de Pedro Diógenes (Melhor Roteiro). Já entre os curtas nacionais, “Pirexia”, de Nico da Costa, levou o troféu de Melhor Filme.

“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, produção de 2026, dirigida por Janaína Marques, apontada como a grande vencedora do festival.

“Pirexia, curta filmado em 2026, do diretor Nico da Costa, premiado na sua categoria.
Entre as produções internacionais, os laureados foram: “Um Calendário Incompleto”, de Sanaz Sohrabi (Melhor Longa-Metragem) e “Dragão”, de Yashira Jordán (Melhor Curta-Metragem).

“Um Calendário Incompleto”, direção de Sanaz Sohrabi, produção assinada por Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu e Venezuela.

“Dragão”, de Yashira Jordán, produção de 2025 envolveu dois países Bolívia e México.
Novos Olhares
Proposta voltada a produções ousadas, que flertam com o risco, a invenção e caminhos desconhecidos em seu uso da linguagem cinematográfica, optando pela radicalidade e desprendimento das convenções do cinema.

“Como Todo Mortal”, de Maria Molina Peiro, uma co-produção entre Espanha e Países Baixos, recebeu o troféu de Melhor Filme na Mostra Novos Olhares.

“O Mez da Gripe”, com direção de William Biagioli, baseado no livro homônimo de Valêncio Xavier. Tem Curitiba como cenário.
Mostra Pequenos Olhares
Proposta: produções voltada ao público infantil, entre longas e curtas-metragens, com o intuito de oferecer às crianças uma experiência única dentro do festival.

O longa-metragem “Papaya”, produção brasileira de 2025, tem Priscilla Kellen na direção.

“Canção de Peixes e Pássaros” (“Balada de Peces y Pájaros”), curta, de 2025, dos espanhóis Anny Uribe e Juan José Arévalo.
Mirada Paranaense Sanepar
Proposta: promover um panorama da produção audiovisual do Paraná, com um olhar dedicado a curtas e longas-metragens.
Um dos destaques do 15º Olhar de Cinema, o longa-metragem, produzido no interior do Paraná, “A Holandesinha”, com direção de João Gabriel Kowalski e Luisa Godoi, tem como protagonista Luiza Godoi Acosta, uma jovem com Síndrome de Down que sonha em ser cineasta e realiza o seu primeiro curta-metragem “Lágrimas de um Pierrot”. O documentário percorre todas as etapas do processo criativo de um filme, revelando sua visão de mundo, os desafios enfrentados e as superações diante do capacitismo.

“Yvyra’ijá há Jate’í Reheguá – Os Quatro Guerreiros e o Jatei”, do Coletivo Ava Guarani de Cinema, de 2025. O curta segue a trajetória de Libório, um xondaro, guerreiro do povo Guarani, que quando jovem desbravava fazendas e enfrentava fazendeiros em busca da abelha Jateí.
Mostra Exibições Especiais
Proposta: espaço dedicado a obras inéditas no Brasil e de grandes nomes do cinema mundial, assim como filmes brasileiros incontornáveis da última temporada que estrearam em outros eventos e chegam à plateia curitibana através do Olhar de Cinema.
“Futuro Futuro”, produção brasileira de 2025, sob a direção de Davi Pretto.
Olhares Clássicos Cine Passeio
Proposta: filmes de todo o mundo que marcaram a história da sétima arte, exibidos como uma homenagem a seus realizadores ou por seus posicionamentos inovadores.

“Hollywood Studios”, de Arthur Rogge. Filmado durante a estadia do diretor nos Estados Unidos entre 1927 e 1928, percorre as ruas de Hollywood, Los Angeles, com o objetivo de revelar ao público brasileiro as estruturas dos grandes estúdios, os atores e atrizes famosos, a cultura e as curiosidades locais. Com gosto de atualidade cinematográfica, este quase centenário filme “paranaense” demonstra por detrás de suas cartelas informativas e retratos peculiares o interesse do empresário, tornado cineasta, pelo desenvolvimento de uma indústria cinematográfica local.

“Veludo Azul” (“Blue Velvet”), do diretor David Lynch, filmado em 1986, foi exibido quatro décadas após o seu lançamento, no ano em que o cineasta completaria 80 anos de idade.
15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
Projeto realizado com recursos da Lei Rouanet, patrocínio master do Terminal de Contêineres de Paranaguá e patrocínio de Peróxidos do Brasil, Mili, Fomento Paraná e Sanepar. Apoio da Cinemateca, Teatro da Vila, Cine Passeio, Icac, Projeto Paradiso e Uninter. Projeto realizado com recursos do Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba – Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba. Projeto aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura | PROFICE da Secretaria de Estado da Cultura | Governo do Estado do Paraná. Lei Rouanet – Incentivo a projetos culturais, Ministério da Cultura – Governo Federal – União e Reconstrução.
